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Deise Nicola: "Miranda Priestly olhou para você, julgou em silêncio e você amou"

Psicóloga especialista em Cognição e Comportamento analisa o filme "O Diabo Veste Prada" e explica por que o segundo longa gera tanta expectativa

 Deise Nicola escreve sobre a lição comportamental de "O Diabo Veste Prada" (Divulgação/Arquivo pessoal)

Ela entra na sala. O casaco impecável. O olhar cirúrgico. Um simples "isso é tudo" basta para congelar o ambiente inteiro. Miranda Priestly não precisa elevar a voz para exercer poder. E é justamente aí que começa a silenciosa lição comportamental de "O Diabo Veste Prada": no consumo, quem domina raramente grita. Envolve com precisão.

Você acha que o filme fala sobre roupas? Fala sobre desejo. Sobre como símbolos de status moldam escolhas, comportamentos e identidades. Cada bolsa, salto ou mesa disputada naquele universo comunica pertencimento. Consumimos objetos, sim, mas muitas vezes o que buscamos mesmo é pertencer e uma boa dose de reconhecimento.

Andy representa algo profundamente humano: a vontade de ascender. Ela entra como outsider e aprende rapidamente os códigos de um mundo onde imagem vale capital social. Quantas vezes as pessoas também mudam linguagem, aparência e hábitos para serem aceitas em certos ambientes?

E então surge o conflito que prende o público: até onde vale ir para vencer? O filme expõe uma verdade desconfortável da psicologia do consumo. Todo ganho simbólico costuma cobrar um preço emocional. Status encanta, mas frequentemente exige tempo, autenticidade e habilidade em relações pessoais.

Talvez seja por isso que essa obra continue tão atual e o segundo lançamento gere tanta expectativa. Porque no fundo ela não fala de moda, fala de comportamento humano. Das escolhas que fazemos para sermos vistos, admirados e validados.

No fim, Miranda Priestly olhou para você, julgou em silêncio e você amou.
Ela entende sobre consumo. E entender sobre o consumo é entender sobre comportamento humano.

*Deise Nicola, psicóloga