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Deise Nicola: "Por que o copo transmite valores, estilo de vida e prioridades"

Psicóloga especializada em Terapia Comportamental conta como a relação das pessoas com as bebidas vem mudando em prol de novos hábitos

Deise Nicola escreve sobre a relação do consumidor com bebidas (Divulgação/Arquivo pessoal)

O comportamento do consumidor em relação às bebidas mudou profundamente e os dados confirmam isso. Beber deixou de ser um hábito automático e passou a ser uma escolha consciente, carregada de significado. Hoje, o copo revela valores, estilo de vida e prioridades.

O consumo de álcool tradicional vem caindo no mundo inteiro. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram uma redução consistente no consumo per capita global na última década, especialmente entre jovens adultos. Pesquisas indicam que as gerações mais novas bebem menos álcool do que as anteriores, não por culpa ou restrição, mas por decisão.

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Nesse movimento, cresce de forma acelerada o mercado de bebidas sem álcool. Cervejas, espumantes e destilados zero registram taxas de crescimento anual de dois dígitos em diversos países, impulsionados por consumidores que desejam socializar sem abrir mão de clareza mental, saúde e performance.

Ao mesmo tempo, os sucos adoçados perdem espaço. Relatórios globais de consumo mostram queda na ingestão de bebidas açucaradas, à medida que o consumidor passa a ler rótulos, desconfiar do açúcar disfarçado de saudável e buscar opções com menos ingredientes e mais funcionalidade.

É nesse contexto que ganham força as bebidas funcionais. Águas saborizadas sem açúcar, chás prontos, kombuchas e fermentados crescem acima da média do mercado de bebidas. Elas não vendem apenas hidratação, vendem autocuidado, equilíbrio e pertencimento a um estilo de vida mais consciente.

Em uma contradição aparente, os energéticos seguem em alta. O mercado global de energy drinks continua crescendo, impulsionado por uma demanda clara por foco, resistência e performance. Atletas, corredores e profissionais sob alta pressão sustentam esse crescimento, mesmo diante das discussões sobre saúde.

Essa dualidade revela algo essencial: o consumidor não busca apenas saúde. Ele busca soluções para diferentes momentos da vida. Alterna entre equilíbrio e estímulo, entre moderação e entrega máxima.

Beber, hoje, é um ato identitário e também estratégico. A indústria que entende isso deixa de vender líquidos e passa a vender experiências, estados emocionais e propósito.

O consumidor não mudou só o que bebe. Mudou a forma como escolhe viver e o que quer encontrar até o último gole.

*Deise Nicola, psicóloga